Belém: Igrejas anunciam restauração da Gruta da Natividade

A Gruta da Natividade vista de uma nova perspectiva. (Foto: Nadim Asfour/CTS)

É finalmente oficial: as igrejas que guardam a Basílica da Natividade confirmaram o início iminente das obras de restauração da gruta onde a tradição situa o nascimento de Jesus.

Por Marie-Armelle Beaulieu

É finalmente oficial: as igrejas que guardam a Basílica da Natividade confirmaram o início iminente das obras de restauração da gruta onde a tradição situa o nascimento de Jesus.

O Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém e a Custódia da Terra Santa anunciam o início iminente das obras de restauração da Gruta da Natividade, um local sagrado reverenciado em toda a cristandade como o local da Encarnação.

Com essas palavras, as Igrejas responsáveis ​​pela Basílica da Natividade anunciaram oficialmente, em um comunicado conjunto em 23 de janeiro de 2026, o início das obras de restauração da Gruta da Natividade em Belém.

O projeto, especificam, será realizado “sob os auspícios da Presidência do Estado da Palestina”, em conformidade com um decreto presidencial de 2024 e no âmbito do Status Quo dos Lugares Santos.

Este anúncio oficial já era esperado, visto que Mahmoud Abbas já o havia insinuado antes do Natal, durante um discurso em Roma. O presidente da Autoridade Nacional Palestina está diretamente envolvido, uma vez que a Igreja da Natividade faz parte de um sítio inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 2012, a primeira inscrição apresentada pela Palestina desde a sua admissão na UNESCO em 2011.

O sacristão, Frei Ananiasz Jaskólski, remove os panos com o emblema franciscano que adornam a entrada do presépio. (foto Francesco Guaraldi/CTS)

No terreno, a obra já teve uma consequência claramente visível: o desmantelamento de cortinas, tecidos e elementos decorativos, realizado por cada comunidade de acordo com seus próprios direitos e costumes. Essa remoção gradual revela a gruta em um estado quase nu, já que o espaço geralmente é preenchido com tecidos, lâmpadas, ornamentos e dispositivos de proteção. A “gruta” mais visitada da cristandade revela-se repentinamente em sua crueza material: um espaço estreito, escuro e desgastado, marcado pelo tempo.

O comunicado de imprensa destaca o quadro de cooperação: a iniciativa é liderada pelos ortodoxos gregos e pelos franciscanos, com a “colaboração fraterna” do Patriarcado Apostólico Armênio. Especifica ainda que a empresa responsável pelo projeto é a italiana Piacenti S.p.A., também responsável pela recente e extensa restauração da basílica. Isso deverá garantir a continuidade de métodos e conhecimentos técnicos.

Em 23 de janeiro de 2026, as decorações da caverna começaram a ser removidas, revelando-a em um estado incomum de desnudamento. (Foto de Francesco Guaraldi/CTS)

O que precisa ser restaurado

Os motivos da restauração são óbvios para qualquer pessoa familiarizada com a gruta. Ela é negra, coberta de fuligem das lamparinas de óleo que ali arderam continuamente durante séculos e de incêndios, um dos quais, em maio de 2014 , enegreceu as tapeçarias e as decorações de madeira. Soma-se a isso o desgaste extremo de um pequeno espaço, aproximadamente retangular (12,30 x 3,50 metros), percorrido por milhões de peregrinos. A observação do local permite avaliar a provável natureza da obra.

Primeiro, o teto: deve ser completamente limpo para remover as camadas de fuligem, além de inspecionar a estabilidade da rocha e da alvenaria onde houver rachaduras visíveis. Se a abóbada recuperar uma tonalidade mais clara, o efeito será imediato: uma caverna com aparência um pouco menos escura e menos deteriorada.

Além disso, o piso de mármore: pode datar do século VI. É mais fácil de entender que, apesar de sua espessura, agora apresenta sinais de desgaste, como um buraco no local onde repousavam as pontas dos sapatos dos peregrinos ajoelhados diante da estrela de 14 pontas.

O piso de mármore está rachado, remendado e perfurado, com algumas partes faltando. (Foto: Nadim Asfour/CTS)

As duas escadarias de acesso — a de entrada e a de saída — também precisarão ser reconstruídas, tanto por razões de conservação quanto de segurança. O comunicado de imprensa menciona ainda “obras de reforço técnico em seções adjacentes”. Isso significa que a obra não se limitará estritamente às poucas dezenas de metros quadrados da própria caverna, mas se estenderá às áreas de conexão, sustentação e circulação.

O que acontecerá com a tapeçaria à prova de fogo, doada em 1874 pelo então presidente francês Patrice de Mac Mahon, que agora parece pálida, mais ameaçadora do que protetora?

Com base no trabalho realizado durante a restauração da parte superior da basílica, o projeto poderia ter como objetivo restaurar sem transformar, preservar sem alterar um espaço museológico, um local destinado ao público e também um espaço de culto vivo.

O projeto também deve incluir elementos litúrgicos: os altares da Natividade e da manjedoura também precisam ser consolidados e limpos.

Também podemos esperar que a empresa Piacenti documente a morfologia antiga do local para melhor compreender o acesso original à gruta antes das grandes e subsequentes renovações da basílica.

Em dezembro passado, alguns artigos sobre o anúncio previsto das obras mencionaram que elas poderiam levar quatro anos. Agora, sabe-se que será “bem menos”. Mesmo assim, as autoridades da igreja garantem que pretendem manter o acesso ao local sagrado o máximo possível. O projeto, como se pode ver na basílica superior, poderá isolar áreas subsequentes e priorizar trabalhos noturnos.

Um sítio documentado desde os tempos mais remotos.

A Gruta da Natividade é um lugar repleto de história. Isso explica a cautela das igrejas que compartilham a propriedade e o uso do local ao formalizar quaisquer acordos.

Quanto à historicidade do local, os Evangelhos são concisos: Mateus situa o nascimento “em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes”, enquanto Lucas menciona a manjedoura porque não havia lugar para eles na hospedaria. A ligação explícita com uma gruta não é mencionada, mas a tradição enraizou-se muito cedo.

No século II, Justino Mártir afirma que José e Maria ocuparam “uma gruta muito perto de Belém” e que Maria deu à luz Jesus ali. Por volta do século III, Orígenes escreveu que a veneração associada ao local estava tão arraigada que até mesmo os não cristãos “da região” conheciam a gruta e a manjedoura exposta aos visitantes. A memória de Belém, portanto, não é uma construção recente: suas raízes remontam a uma geografia de peregrinação muito antiga.

O local também sofreu períodos de profanação e reconquista. São Jerônimo, que se estabeleceu em Belém em 384, descreve um lugar que outrora fora obscurecido e teve sua função alterada sob o imperador Adriano, sendo posteriormente restaurado como um santuário de oração. Ele menciona um pequeno espaço e os fiéis que oravam nas cavidades próximas. Isso é crucial: a Gruta da Natividade não pode ser compreendida isoladamente, mas sim como o núcleo de uma rede de cavernas e antigas cisternas que se estendem sob e ao redor do complexo.

A própria basílica rapidamente se tornou um local monumental. Relatos antigos situam a gruta sob a igreja de Constantino; a basílica foi consagrada em 339. Incendiada e depois destruída em 529, foi reconstruída nos anos seguintes pelo imperador Justiniano, que lhe deu a forma atual.

A circulação interna evoluiu um pouco mais tarde: de uma única entrada antiga, entre os séculos VI e IX — período sugerido por relatos de peregrinos — foram adicionadas duas escadarias para facilitar o fluxo de pessoas. A gruta assumiu, assim, sua forma atual: um espaço retangular, estruturado por seus pontos litúrgicos e integrado à arquitetura superior.

É precisamente essa continuidade — século II, século IV, século VI, as Cruzadas, incêndios, terremotos, restaurações parciais — que confere significado ao projeto atual: não estamos intervindo em mera decoração, mas em um lugar onde cada camada material é também uma camada de história. Se a gruta parece desprovida de detalhes hoje, talvez essa seja a melhor imagem do que está em jogo: encontrar um equilíbrio entre conservação, segurança e fidelidade a um lugar que perdurou por quase dois milênios e ainda proclama o nascimento de um Deus feito homem para a salvação do mundo.

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